O nascimento de ZEUS

urano_jpgCronos, O Tempo, após destronar, sangrentamente, o próprio pai, era o senhor de todo o Universo.

– Aqui é assim: mando eu e ninguém mais!, dizia o tempo todo, a ponto de suas palavras reverberarem noite e dia pelos céus.

Certa feita, sua esposa, Réia, que também era sua irmã, chegou-se a ele e disse:

– Abraça-me, querido Cronos, pois serei mãe!

O velho Cronos, encanecido no mando, esboçou apenas um sorriso.

– Muito bonito, resmungou o deus.

– Mas e daí?

– Ora, e daí que você, meu esposo, será pai!, disse ela, tentando animá-lo.

Esta palavra no entanto, despertou a fúria de Cronos. Pondo-se em pé, com os olhos acesos, esbravejou:

– Não quero ouvir falar mais nesta palavra aqui no céu.

Imediatamente, ordenou que a pobre Réia saísse da sua frente, para que pudesse reorganizar seus pensamentos. A praga que seu pai lhe lançara no dia em que o mutilara com a foice diamantina ainda ecoava em seus ouvidos: “Ai de você, rebento infame… Do mesmo modo que usurpou o mando supremo, irá também um dia perdê-lo…”

Nada de filhos, exclamou, por fim, a velha divindade.

– Réia, venha já até mim!

Sua esposa surgiu, um tanto intimidada.

– Quando nasce esta criatura que você está carregando?

– Vamos, diga!, bradou Cronos.

– Nos próximos dias, Cronos querido…

– Assim que nascer, traga-o imediatamente até mim.

– Assim será meu esposo…

Réia, correndo os dedos pelas madeixas, sorria candidamente.

Alguns dias depois, com efeito, nasceu o primeiro bebê: era Hera, uma menina encantadora, porém de poucos sorrisos.

– Deixe-me vê-la, sussurou Cronos, besuntando de mel a sua áspera voz.

– Veja, não é linda?, disse Réia, a imprudente.

Encantadora!, respondeu o deus, com um sorriso equívoco.

Vamos, dê-lhe um beijo, disse Réia.

O velho deus tomou, então, a criança envolta nos panos, e aproximou-a de seu imenso rosto.

– Dá mesmo vontade de engolí-la inteira, exclamou, arreganhando os dentes.

Réia chorou de ternura.

Cronus (Saturno) - Rubens

Cronus (Saturno) - Rubens

Num segundo, Cronos abriu, de par em par, a bocarra, como duas portas que dão para um abismo, e engoliu a pobre criança, que não deu um único pio.Réia chorou de horror.

Sem descer a explicações, Cronos tomou a cabeça da esposa em suas mãos e exclamou:

– E nada de choros, hein? Nada de vinganças.

Depois despediu-a, não sem antes adverti-la:

– E, já sabe: nascendo outro, quero-o logo aqui.

Cronos dava tapinhas na sua barriga cheia, como que parabenizando-se pelo engenhoso estratagema. Depois retomou o seu eterno estrebilho, agora com renovado prazer:

– E você aí dentro, já sabe: aqui é assim, mando eu e ninguém mais.

O tempo passou e foram nascendo os rebentos.

Tão logo os filhos da desgraçada Réia iam saindo do cálido ventre da mãe, eram imediatamente metidos na boca tétrica do estômago do pai.

Passaram, assim, por este odioso portão, além de Hera, Hades, Poseidon, Héstia e Deméter. Quando chegou a vez do quinto bebê, Réia, farta de tanta sujeição, revoltou-se afinal:

Este não…, pensava.

Passando, então, das palavras à ação, correu até a mais distante caverna do mundo – a caverna de Dicte – e lá gemeu e gritou, até dar à luz, Zeus, seu último e mais esperado filho.

Depois de entregar o garoto aos cuidados das ninfas da floresta, Réia retornou às pressas, ao palácio de Cronos.

Uma vez em seus aposentos, envolveu uma pedra nos lençóis e começou a gritar, como quem está em trabalho de parto.

Temos nova peste, exclamou Cronos, rumando para o quarto.

reia1Tão logo enxergou sua esposa segurando algo envolto nos panos, tomou-lhe o embrulho das mãos e engoliu-o, imaginando ser o quinto bebê.

É o último hein…?, disse o deus, limpando a boca com as costas da mão e desaparecendo em seguida pela porta.

Réia, apesar da perda, chorou como das outras vezes.

Tudo agora parecia em paz, pensa Cronos, enquanto gozava do silêncio, refestelado em seu trono dourado.

De vez em quando, porém, repetia bem alto o seu amado estribilho, pois o silêncio absoluto enchia-o de vagas apreensões:

– Bom mesmo é minha voz retumbando: aqui é assim, mando eu e ninguém mais!, gritava ele, acalmando-se.

Isto era bom também para o jovem Zeus, que permanecia oculto nas grutas distantes, podendo chorar à vontade. Quando chorava alto demais, as ninfas que dele cuidavam ordenavam que guerreiros reverberassem seus escudos, com toda a força, para abafar os sons infantis.

Para acalmá-lo, havia uma doce cabra, chamada Amaltéia, que o amamentava e lhe servia de distração.

A infância de Zeus - Poussin

A infância de Zeus - Poussin

Distração que também lhe trazia uma bola estriada de ouro, que o garoto recebera de presente de uma das ninfas, a qual ao subir e cair deixava no céu, como um fulgente meteoro, um belo rastro dourado.

Por fim, havia ainda uma águia encantada que todos os dias vinha de todas as partes do mundo contar novidades e instruir o jovem deus nas coisas da vida.

Zeus, grande deus, disse-lhe um dia a águia, quando o garoto já estava crescido.

– Já é hora de saber sobre o terrível perigo que você corre.

A ave então, narrou ao deus todo o drama que dera origem à sua existência.

– Vai e liberta os seus irmãos da negra prisão em que estão metidos, para que você possa assumir o lugar de seu pérfido pai no comando do mundo, disse a águia, estendendo as longas asas, para enfatizar suas palavras.

Zeus, que era um rapaz extraordinariament forte e corajoso, acatou imediatamente a sugestão da sua fiel conselheira.  Auxiliado pela filha do titã Oceano, a suave Métis, tomou posse, então, de uma poderosa erva mágica.

Faça com que seu perverso pai beba desta poção e num instante você verá regurgitados todos os seus aprisionados irmãos, disse-lhe a bela oceânide.

Zeus conseguiu disfarçar-se de serviçal de Cronos e ofereceu-lhe a atraente beberagem numa taça de ouro.

– Que espécie de néctar é esse, que tem o brilho de todas as cores e se perfuma de todos os odores?, perguntou Cronos, arregalando o olho para dentro da taça.

– Um néctar como nunca experimentaste igual, asseverou Zeus, desviando ao mesmo tempo o olhar da carranca severa do pai.

Cronos, após infinitos vacilos, finalmente emborcou o conteúdo da taça.

A princípio, estalou os beiços, achando maravilhosa a poção. Durou pouco, entretanto, o prazer, pois logo em seguida o velho começou passar mal.

Mas o que é isto?, exclamou Cronos, fazendo-se todo branco.

Sinto náuseas fortíssimas.

Dali a instantes, Cronos começou a regurgitar, um por um, cada um dos filhos que havia ingerido. Como já fazia muito tempo que os engolira, agora se via obrigado a restituí-los completamente adultos. A incrédula Réia, que estava junto do esposo, ia recebendo cada um dos filhos com a face lavada em pranto:

– Oh, Hera querida… Héstia amada… adorada Démeter… Poseidon, meu anjo, Hades, meu amor…

Com o retorno de seus irmãos, Zeus havia dado o primeiro e irredutível passo para retirar o poder supremo do mundo das mãos de seu pérfido pai.

– Exijo, Cronos cruel, que me ceda agora o cetro do mundo!, exclamou Zeus, com altivez e confiança.

– Como ousa levantar a mão ímpia contra mim, o soberano do mundo?, exclamou Cronos, repetindo ao filho algo que lhe soava estranhamente familiar.

Pressentindo, no entanto, o perigo, Cronos tratou logo de ir procurar seus antigos irmãos e aliados – os velhos, porém fortíssimos, Titãs.

– Mas isso é o fim dos tempos!, acrescentou, criando uma frase que as gerações futuras repetiriam sempre que uma civilização entrasse em decadência.

7 Comentários

  1. Cristiane said,

    1 de outubro de 2010 às 9:41 PM

    Gostei!!

  2. jess said,

    15 de dezembro de 2010 às 12:57 AM

    muito bom *-*

  3. 25 de fevereiro de 2011 às 11:46 PM

    A vingança nunca é plena, mata alma e invenena. rs…

  4. brenda said,

    4 de abril de 2011 às 5:41 PM

    otimo super legal 100%

  5. Guilherme said,

    16 de junho de 2011 às 12:27 AM

    Muito bom, consegui fazer meu trabalho com essa história que você contou!! Muito obrigado.

  6. Gabriel Felicio said,

    1 de janeiro de 2012 às 5:15 PM

    muito bom

  7. Gabriel Felicio said,

    1 de janeiro de 2012 às 5:16 PM

    gostei


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